20081125

063 :: sandoval


[ carvalhal | setembro de 2008 ]

1

Ela bateu à porta três vezes. Depois outras três. A porta abriu-se, ela entrou imediatamente e mordeu-lhe o braço. Ele não se queixou ao início, nem com ela já na sala rindo e sentando os olhos numa cadeira e depois noutra e depois noutra. Só quando a viu sentar todo o corpo na cadeira mais perto da cristaleira decidiu confessar,

- Dói-me o braço.

Acrescentou,

- Não devias ter-me mordido o braço.

Ela,

- Não sejas tonto.

Riu e abriu a cristaleira. Havia lá um dedal de porcelana que lhe agradava muito. Usou o dedal no dedo errado. Disse,

- Sabes, por vezes julgo que te amo.

- É natural, sou teu pai.

- Não é isso, julgo que te amo como uma mulher ama um homem quando os dois estão na cama. Gostava de te amar na cama.

- Não fales assim, sou teu pai.

Ela aproximou-se dele e agarrou-lhe as pernas com força, depois os braços com força, depois a cabeça com força, depois despiu-o, agarrou-lhe o pénis ingrato e arranjou algum espaço em si própria para o acomodar, mas logo a seguir ele,

- Vim-me.

E depois,

- Isto é um disparate, sou teu pai.

Ela riu. Ela,

- Que tonto, claro que não és meu pai.

Ainda usava o dedal de porcelana no dedo errado.

- Não sou, mas existe uma estética nessa possibilidade que me agrada, compreendes?

- Como está o teu braço?

O braço tinha já cicatrizado e eles tinham já uma filha. Saíram os três pela tarde e ouviu a filha dizer a mãe,

- Alguém que nos permitisse viajar para a sua imaginação como viajamos para outro país seria muito amável.

- Foi uma frase lindíssima, mãe.

A mãe sorriu.

- Escreve um livro, mãe, será um livro lindíssimo, de certeza.

A mãe sorriu.

- Sim, vou escrever um livro.

No dia seguinte a filha perguntou à mãe pelo livro, mas a mãe,

- Enquanto caminhava ia a escrevê-lo com os olhos, largando palavrinhas pela rua, mas quando aqui cheguei ficaram todas à porta e agora já não lhes consigo dar ordem.

A filha decidiu então comprar um caderno para a mãe. E uma caneta. A filha comprou um caderno e uma caneta e ofereceu-os à mãe para que ela anotasse a ordem das palavras. No dia seguinte perguntou-lhe pelo livro, mas a mãe,

- Comecei a anotar a ordem das palavras, mas depois não consegui evitar que as palavras que via nos cartazes e nos letreiros das ruas saltassem também para o caderno. Então a filha tapou todas as palavras e letras que encontrou na cidade e pintou de branco todas as ruas e todos os passeios, para ser fácil à mãe encontrar ali as palavrinhas, mas a mãe,

- Todas as palavras que imagino são brancas.

A filha pintou tudo de preto.

- As palavras que imagino são brancas, mas como depois no caderno tenho de as escrever a preto confunde-se-me tudo.

Então a filha saiu por umas horas e voltou com namorado. O pai desaprovou.

- Tem os pés tortos. Atrapalhar-se-á ao acompanhar-te a vida.

Mas a filha estava já grávida e aproveitou para dar à luz naquele instante. Não foi do pleno agrado de ninguém, mas aprumaram o infante à mesma e trataram logo de o aplaudir ao mundo e de o baptizar de Sandoval.

Já pela noitinha, serenadas as vozes da casa, Sandoval pediu a palavra.

5 bilhete(s):

Cândido d' Almeida disse...
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Cândido d' Almeida disse...

Simplesmente um dos melhores textos que já li. Realmente enigmático e ousado.

Cândido d' Almeida disse...
Esta mensagem foi removida pelo autor.
marcosv disse...

ai um lindo conto pro natal!

Laura disse...

fantástico... Já agora, desejo-te um excelente ano. Continua a escrever para eu fazer mais teatro... :-)