[ esposende | agosto de 2004 ]
Há uns anos trabalhei num balcão de atendimento ao público para uma conhecida empresa da praça. Um dia chegou-me lá uma daquelas moças de roupas coloridas e desfiadas, o cabelo apanhado com uma ou duas rastas, as pulseiras de fios vermelhos e verdes e as sapatas de tecido. Pediu-me um produto. Entreguei-o numa saca de plástico. Recusou.
- Não tem nenhuma de papel?
Disse-lhe que não. Curioso, questionei-lhe a preferência.
- O plástico demora séculos a desaparecer na biosfera e, enquanto não se degrada, corrompe ecosistemas, sufoca animais, destrói a flora. Já o papel desaparece rapidamente e sem causar transtornos ambientais, para além de que todos os sacos de papel actuais são produzidos a partir de papel reciclado. O papel é uma boa opção, ao contrário do plástico.
Falou com autoridade e alguma violência, como se me censurasse a ignorância que me levou à pergunta. Perguntei-lhe se conhecia Aveiro e a Portucel.
- Sim, conheço.
Perguntei-lhe se conhecia os custos ambientais da produção de papel de uma fábrica como a Portucel.
- Não, não conheço.
Expliquei-lhe que a produção de plástico, apesar de tudo, era limpa. Já a produção de papel tinha enormes custos ambientais, como qualquer pessoa que habite perto da Portucel lhe poderia dizer. Perguntei-lhe se já tinha equacionado tudo para formar a sua posição, se já tinha comparado os custos ambientais da degradação do plástico com os custos ambientais da produção do papel, perguntei-lhe se se tinha informado sobre estas e outras questões ou se tinha apenas agarrado uma posição de ecologia de pacotilha, pré-fabricada, pronta a consumir e a fazer as delícias dos novos activistas da defesa de Gaia.
A rapariga aborreceu-se e foi-se embora sem me dar mais explicações. Eu transformei-me numa mosca e segui-a. Acompanhei-a muitos anos, até à sua morte, e observei-a inúmeras vezes perguntar aos outros se já tinham efectivamente pensado no assunto dos sacos ou se se limitavam a repetir o que uma vez ouviram dizer, numa febre de novos activismos irreflectida e mal fundamentada. Morreu feliz, mas não foi uma única vez confirmar a história que, há tantos anos, um empregado de balcão lhe contou.


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confirmou-se. sempre desconfiei de empregados de balcão.
calim
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